MÃE OU MALÉVOLA - Coluna Híbrida
Crédito: Divulgação
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MÃE OU MALÉVOLA?

Minha mãe não permitiu aos filhos conhecer o que era privacidade. Na teoria sim, exemplarmente. Mas no dia-a-dia, ela desrespeitava todos os limites. No afã de cuidar e proteger, perdia a mão. Ora sufocava de cuidados, ora explodia em gritos de repreensão. Usurpava nossa voz e várias vezes me vi dublando respostas que eram dela e não minhas. Tirava nosso poder de ação sobre os fatos, incutindo em nosso espírito uma sensação de dependência e impotência. Autoritária e intimidadora, anulou diversas vezes a possibilidade de termos nossas próprias impressões sobre assuntos e pessoas. Vetava nosso direito de ir e vir à rua na maior parte das vezes e quando saíamos, fuçava nossos armários como se fossemos suspeitos de algum crime. Diálogo também nunca foi seu forte e não possuía a menor didática para lidar com crianças ou adolescentes. Suas conversas eram sempre os mesmos assuntos políticos-antropológicos-biológicos de sempre. Conosco o máximo que conseguia eram frases de comandos, ordenando coisas tipo: “não mexa naquilo”, “não faça isso”, “não pegue tal coisa”. Mandava e desmandava em cada cômodo, em cada móvel, em cada metro quadrado do apartamento, como um general no quartel. Não permitia manifestações de individualidade porque não tinha a menor paciência para o diferente. Hábitos e assuntos que destoassem do dela, eram rapidamente reprimidos. Se houvesse qualquer vestígio de ocupação nossa na mesa de jantar da sala, ela mandava sair. Um brinquedo ou caderno fora do lugar virava motivo para uma série de grosserias verbais. Perdi a conta de quantas vezes fui chamada de vaca, pra você ter uma ideia! E o clima ficava pior se ela já estivesse irritada com outras coisas, como o mau funcionamento da máquina de lavar, com o tempo chuvoso que não secava a roupa e de TPM. E se nesse exato momento, você quebrasse ou derrubasse qualquer coisa no chão, ela explodiria como um vulcão em erupção. Numa fúria cumulativa irracional que podia durar horas, minha mãe descontava toda a sua insatisfação sobre nós, perdendo a noção do volume da voz e o controle sobre suas ações. Parecia um animal selvagem estressado no cativeiro. E a única certeza que tínhamos é que ia sobrar pra nós.

Elucidando-a, mi madre Dona Marcia é um personagem de temperamento genioso, forte, cheio de opinião e disposição para palestrar. Viveu a maternidade prematuramente e teve de fazer escolhas que boicotaram seus sonhos individuais (será que isso explica tanta raiva no coração?). Desde a minha adolescência, sua expressão sisuda e pouco convidativa, igual a do meu avô, desencorajava qualquer contato de conhecidos na rua. As pessoas me diziam: “vi sua mãe andando esses dias por aqui, não a chamei porque ela parecia estar brava”. E nem estava! É que mamãe é dessas, espanta até gripe com a cara de má que Deus lhe deu.

Ela vivia todas as suas emoções através de nós. No entanto, tais atitudes ao longo da juventude só nos ensinou a ser adultos emocionalmente frágeis e bastante inseguros. Ensinou que só a palavra não basta e que devemos desconfiar de tudo, por premissa. E apesar do discurso politizado, no final das contas, seu exemplo não tinha nada de genial e tampouco politizado. Pelo contrário, foi uma ditadora com sua família.

Se há um lado bom nisso tudo é que me inspirou a libertação. Quando assumi que era gay, a convivência entre quatro paredes se tornou insuportável e me forçou a buscar novos lares. Fui acolhida pela minha avó e pude desenvolver a doçura. Passei a perseguir minha independência com tenacidade. Tornei-me mais leve, feliz, sem claustrofobia. E até hoje luto contra os reflexos dessa criação conturbada e contraditória. Adquiro consciência em meu modo de lidar com o mundo, num lento e profundo processo de autoconhecimento. E reconhecer essas lacunas é o primeiro passo para a mudança. Como dizia Sartre, não importa o que a vida fez de você. Importa o que você fez do que a vida fez de você.

Mesmo com tantos deslizes, sem você eu não existiria. Então, obrigada mãe.

 

Crédito: Chrisce de Almeida

Por Tacy de Campos  cantora, compositora, poeta. Seu primeiro disco autoral é “O Manifesto da Canção” e integra os projetos “DuoPlex“, “DuoÀs” e Banda Os Marginais. Tacy ainda atua como atriz e cantora em Cassia Eller, O Musical desde 2014 e apresenta o show “Relicário Cássia Eller”. É voluntária dos projetos “Os Pitais” e “Solyra”.  É Colunista do Portal VRNews e apresentadora do Programa Sala dos Fundos no YouTube.

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