LIMPANDO O SÓTÃO MENTAL
Foto: Divulgação
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Carrego comigo uma sorte enorme de quinquilharias. Sentimentos toscos, situações mal resolvidas, mágoas, dúvidas inúteis. Me apego a regras que crio ou que criaram pra mim, na esperança que estas coloquem limites e valores seguros ao espírito. E por vezes, para respeitar estas regras imaginárias, quebro minhas próprias regras vitais. Passo por cima da generosidade, da leveza, da simplicidade, do contentamento. Carrego coisas que deviam ter ficado para trás.

Compartilharei algo pessoal como exemplo. Meus pais são um calcanhar de aquiles, um par de fantasmas que me persegue. Aparecem em conversas sem ser chamados. São evocados pela minha memória inoportunamente. Dormem, almoçam e jantam comigo. Permeiam minhas leituras e confabulações. Aonde eu quer que eu vá, não importa como, lá estão suas figuras e todo o seu significado. Meus inimigos jamais descansam.

A mente humana deve ser mais temida que cobras venenosas e ladrões assassinos vingadores”, dizia Buda. Quanto mais me conheço, mais reafirmo esta sentença. Ter controle sobre si mesmo é talvez a habilidade mais admirável em alguém. É trabalhoso desenvolver-se, sem dúvida. Requer determinação, persistência e vigilância constante. A meditação é um caminho aparentemente simples. Mas para tornar-se hábito, é preciso prática diária incansável. Ser implacável e tenaz até que um dia seja natural como respirar.

Para me livrar dessas projeções mentais, devo ter controle sobre minha mente. Devo soltar a mão de meus pais e permitir que partam. Não da minha vida, mas da minha cabeça. Se eles me sufocam, a culpa é minha. Carrego-os sem necessidade, como uma muleta, como estorvos. E grito ‘liberdade’ contra suas figuras fantasmagóricas, tal como uma adolescente rebelde deslocada. Depois é fácil condená-los de tolice e juventude tardia. Mas quem está sendo mais tolo, eles ou eu? Só libertando-os eu me libertarei. Se me julgo mais esclarecida e capaz, devo compreender suas limitações e transcendê-las. Se me julgo melhor, devo de fato, o ser. Se o outro perde o controle, eu devo exercer a calma. Se o outro for violento, eu reforço atitudes de paz. Enquanto o outro se precipita, eu pondero. Este é o equilíbrio, este é o poder e independência verdadeira. Se alguém consegue te tirar do prumo, então esta pessoa detém poder sobre você. E se nada fizer a respeito, será escravo deste domínio.

A mudança de condicionamento, contudo, não acontece somente a partir do frugal desejo. Esta determinação tem que ser profunda. E para evoluir verdadeiramente, precisa-se de tempo. Ouvido no silêncio de dentro de si, você saberá se é sincero, se é um chamado interior mais forte. Assim, sem pressa, é possível alcançar objetivos. O tempo calca bem suas raízes na terra, constrói bases sólidas. Os frutos serão a consequência desse plantar e desse regar. O tempo é a maturação de qualquer determinação, de qualquer processo.

A semente jamais conheceu a flor” (Osho). Posso pensar em inúmeras circunstâncias para aplicar esta frase e ela é exatamente isto que se pode ler. Tal como a semente que jamais verá ou tocará a flor para dizer-lhe ‘olá’ ou ‘adeus’, assim meus pais jamais alcançarão a flor que desabrocha em mim, já que foram sementes apenas. Como se tivessem me plantado nas raízes subterrâneas com seus ensinamentos. Mas eu já estou no galho, sob o calor do sol. Isto também reafirma a inutilidade da pressa e da ânsia. Meus esforços ontem foram sementes e hoje já contemplo alguns botões. Amanhã serão frutos maduros nas pontas. Estes frutos jamais cruzarão com as sementes que tudo começaram. A adolescente que fui jamais conhecerá a velha que serei. Assim é, ponto.

Compreender o mecanismo natural das coisas ilumina e simplifica a existência. As respostas são óbvias, basta saber observar com clareza. Está em todas as coisas, no mundo material e antimatéria. Tudo é uma coisa só e a essência é o seu elo. Terra, água, fogo e ar. Corpo físico, sensações, percepções, conexões neurais e consciência. Constatar isto me traz alívio. Posso soltar as tralhas que carrego, posso desaparecer com sombras e sentimentos ruins, posso viver o hoje sem ambição ou nostalgia. Posso entender a dor e recusar o sofrimento. Tudo pode acontecer. Nunca é tarde, então, que seja agora. Pense nisso!

Como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena, embora o pão seja caro e a liberdade pequena” (Ferreira Gullar)

 

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Crédito: Chrisce de Almeida

Por Tacy de Campos  cantora, compositora, poeta. Seu primeiro disco autoral é “O Manifesto da Canção” e integra os projetos “DuoPlex“, “DuoÀs” e Banda Os Marginais. Tacy ainda atua como atriz e cantora em Cassia Eller, O Musical desde 2014 e apresenta o show “Relicário Cássia Eller”. É voluntária dos projetos “Os Pitais” e “Solyra”.  É Colunista do Portal VRNews e apresentadora do Programa Sala dos Fundos no YouTube.

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