Era outra vez - Coluna Híbrida
Crédito: Divulgação
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Desde os primórdios do cristianismo, o flagelo feminino é aceito e perpetuado, sendo difícil mensurar até hoje os níveis de dor e medo em mente, corpo e espírito por trás da persona “mulher” na sociedade. Crítica inteligente a esse mal atemporal, o livro “No início”, vencedor do Prêmio Paraná de Literatura de 2014, é mais do que um resgate do Antigo Testamento bíblico, mas uma releitura atraente para nossa pós-modernidade. É uma reviravolta da história, uma tangente bíblica para as almas castigadas e esperançosas. Uma obra que fala de amor e luta, que dá voz e vez, às primeiras mulheres da civilização cristã que nunca foram ouvidas ou devidamente apresentadas.

A autora carioca Adriana Griner, inspirada no capítulo inicial da Mímeses, do estudioso alemão Auerbach, recriou algumas dessas histórias milenares do Gênesis, colocando-as sob a condição da ótica feminina. Em linguagem contemporânea e leitura palatável, o envolvente “No inicio” leva-nos inevitavelmente à reflexão. São treze histórias contadas em forma de conto, estarrecedoras pela violenta e passiva realidade a qual a mulher foi obrigada a se submeter através dos tempos. Talvez exatamente por essa intimidade e objetividade proporcionada pelo gênero narrativo ‘conto’, o livro não nos permite fugir de suas páginas, ainda que nos fustigue e deixe os cabelos em pé. Obrigo-me a deixar aqui, sem escusas, minhas cáusticas e particulares impressões sobre esta curiosa e fascinante obra.

De largada, o conto “havah” aborda a ambição e insegurança divina, pois que o conhecimento e a temeridade só a deus podem pertencer. Trata-se de um deus com características tão humanas quanto as de suas criaturas. Cheio de inveja, o criador se utiliza da ignorância e ingenuidade de Eva e Adão para expulsá-los do Paraíso, sem jamais admitir sua intenção e covardia na incitação a comer a tal fruta, através da serpente. Já o conto “a mulher de shem”, remonta a história da Arca de Noé, através do olhar da mulher de um dos filhos de Noé, criticando a ética divina de expurgar o mal do mundo. A partir de um animal imaginário _ leucrota_, a leitura nos leva a possibilidade de julgar as decisões do deus que decide salvar Noah e sua família, sem considerar seu comportamento egoísta e preconceituoso com os semelhantes. Noah deixa claro que o amor entre iguais não é bem-vindo no mundo novo de seu deus, assim como as palavras de uma mulher pouco ou nada valem para àqueles homens surdos à sua sensibilidade.

Na história de “babel”, a autora novamente nos confronta com a persona divina e nos traz a versão dos fatos através da ótica de uma personagem fictícia, cujo o nome é homônimo ao título. A protagonista vê sua família e sociedade ruir, por conta do capricho de um deus ambicioso e inescrupuloso, que visava destruir uma torre para se tornar inesquecível. Por fim, esse mesmo deus é flagrado por ela lamentando o tiro que saiu pela culatra: fracassou na empreitada e foi esquecido assim mesmo. A grande força do conto está na impressionante capacidade de comunicação da sociedade humana que, apesar da caótica ruína, consegue reconstruir-se e perpetuar-se incansavelmente. Em “Sarai”, a crítica é ao machismo e novamente a impotência feminina. Esta mulher infeliz, estéril, negociada como um produto de troca para o faraó do Egito, traída, tratada como objeto “de todos”, sofreu muito. Quando finalmente ficou grávida, teve que entregar seu filho para o sacrifício, (castigo divino por sentir inveja e insegurança de sua rival Hagar). A saga de Sarai (que quer dizer ‘minha princesa’) é narrada por Griner em 3 capítulos _ verão, outono, inverno _ e deixa claro que a opressão masculina nunca se melindrou diante da dor do sexo oposto. Algo ainda mais sinistro é abordado no conto parcialmente fictício de “as filhas de Lot”. O assim chamado Lot é um pai que para proteger os anjos mensageiros do senhor seu deus, oferece as próprias filhas como brinquedo sexual a forasteiros selvagens de Gomorra. Nojo, dor e desapontamento destroem a figura paterna diante da intenção do crime. A decisão de partir é irrefutável, mas elas são sensatas o suficiente para saber que precisam garantir a continuação de sua espécie. Vingança e sobrevivência as fazem embebedar o pai e possuí-lo. Sim, possuí-lo! Sem amor ou apego, apenas a necessidade do sêmen para gerar suas crias. Complexidade, polêmica, mas sobretudo, a impressionante força da sobrevivência. A mesma coragem teve “a mulher de Lot”, onde o abuso de poder, a moral e a ética divina são novamente postos à prova pela narradora. A matriarca acompanha o desenrolar de Lot na obsessão por seu deus egoísta e mesquinho. Cego de raiva e intolerância, ameaça-lhe um tapa. Este gesto, somado ao ultrajante oferecimento sexual de suas filhas no lugar dos anjos, para ela significou o fim. Desgostosa da vida, em meio a fuga do incêndio de Sodoma, a mulher se torna pedra e morre.

Por outro lado, Griner também nos mostra que parte da força de uma mulher, para época, era sua ardilosidade, e fazer uso dessa habilidade quando necessário. Em “Rivka”, (ou Rebeca), ela remonta o clássico Esaú e Jacó (história dos irmãos que se odeiam, no original Esav e Yakov) e defende que foi por amor que Rikva, mãe de Esav, interferiu no curso da tradição e privilegiou o filho mais novo Yakov, plantando o ódio entre as crias e o repúdio deles sobre ela. Mais que isso, a autora nos mostra o verdadeiro amor materno, que renuncia a presença de seus filhos junto dela em favor de suas vidas prosseguindo.
No conto “lea e rachel e zilpa e bila” vemos como o pensamento da procriação era dominante entre as comunidades antigas. Todas essas quatro mulheres deitaram-se com Yakov, umas apaixonadas, outras apenas para engravidar. Rachel, favorita de Yakov, só conseguiu engravidar depois de muito tempo e morreu durante a segunda gestação. A competição entre elas era enorme. Ao fim do conto, é de se pesar a fragilidade da vida frente ao desgaste das circunstâncias que estamos sujeitas a passar, principalmente quando a mulher era normalizada como um mero objeto de reprodução. Para Yakov, após a morte de Rachel, restou-lhe cair em depressão e perder-se no deserto, como é contado no penúltimo conto do livro.

“Dinah”, é a história de uma mulher que foi violentada e teve de se casar com seu violentador. No Gênesis original, Dinah aparece como mera espectadora de sua própria história, mas graças à releitura de Griner, podemos conhecer seus pensamentos sobre a agressão, o agressor Shchem e a vingança do pai e dos irmãos contra ele. Uma retroalimentação infinita de violência que tem muito mais motivação política e moral, que preservação à integridade física de Dinah.

Em “Bila”, temos a abordagem do amor sem culpa entre Reuven, primogênito de Yakov com Lea, e Bila. Eles se deitam e se amam inevitavelmente. Este aparente pecado do filho com seu pai é rebatido por Bila, que gentilmente lhe mostra que amor não pode conter arrependimentos. É impossível não perceber que é através da fala desta personagem que a autora ponteia direta comunicação com o leitor.

Por fim, temos a história de “Tamar”, emblemática. Para a autora, é a primeira história em que uma mulher toma o destino em suas mãos. Tamar é completamente consciente de si: “eu não preciso de mais um homem em minha cama. Tudo o que eu preciso é alguém que gere um filho em mim [..]”. Mulher sofrida de dois maridos cruéis e ostis, ela se empodera e vai a luta: veste uma túnica azul em lugar do preto luto, sai no deserto, passa-se por uma prostituta e deita-se com Yehuda, numa objetiva busca por um sêmen em seu ventre. Ele, ao descobrir quem era a mulher com quem deitara, ameaça jogá-la na fogueira. Ela o enfrenta, devolve-lhe o pagamento do ato sexual e sua absoluta firmeza em ser mãe independente o põe em seu lugar. Ela não quer um pai, somente um filho e enfim ele a deixa em paz. E Tamar se realiza plenamente na sua maternidade solitária.
Em conclusão, “no início” é uma leitura necessária em nossos tempos pós-modernos. A autora flerta com ideais feministas e políticos atuais, entremeada pela poesia, durante toda a prosa do texto, com leveza e, por vezes, com irreverência. A grande sacada desses contos é a possibilidade. As coisas não foram exatamente assim, mas poderiam ter sido. E tudo seria diferente hoje se alguém tivesse permitido que as vozes destas mulheres tivessem se manifestado tanto tempo atrás.

 

 

Crédito: Chrisce de Almeida

Por Tacy de Campos  cantora, compositora, poeta. Seu primeiro disco autoral é “O Manifesto da Canção” e integra os projetos “DuoPlex“, “DuoÀs” e Banda Os Marginais. Tacy ainda atua como atriz e cantora em Cassia Eller, O Musical desde 2014 e apresenta o show “Relicário Cássia Eller”. É voluntária dos projetos “Os Pitais” e “Solyra”.  É Colunista do Portal VRNews e apresentadora do Programa Sala dos Fundos no YouTube.

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