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As pessoas costumam esquecer que um relacionamento é feito de trocas, independente do tipo de relacionamento. Casar com uma mulher cadeirante com certeza é diferente de casar com uma mulher sem deficiência. Ela pode precisar, ou não, de inúmeros auxílios físicos. Como cada caso é um caso, vou contar minha experiência e espero que entendam onde quero chegar.

Conheço meu marido há mais de 15 anos, estamos juntos há quase sete anos e vivemos na mesma casa faz um pouco mais que isso. Nossa convivência é muito boa, porque os nossos defeitos não agridem a outra pessoa e principalmente porque nos doamos à relação. Mesmo assim, tendo uma doença degenerativa e sendo cadeirante, tenho limitações motoras que necessitam de força física para serem superadas. Sim, ele me ajuda a levantar, vestir determinadas roupas, me calçar, ir ao banheiro, tomar banho e já houve um tempo que precisou viver intensamente uma rotina de “enfermeiro”. Quando me acidentei e me tornei cadeirante, ele trocou as fraldas que usei e teve uma imersão no mundo feminino de sangue, pelos e dores.

Uma das frases que mais ouço em relação a nós é: “COMO VOCÊ É SORTUDA DE TER UM MARIDO DESSES”.

É claro que muitos homens ou mulheres poderiam ter simplesmente aproveitado a deixa de um acidente e abandonado o relacionamento. A sorte que eu tive foi de conhecer uma pessoa de caráter e que jamais abandonaria qualquer ser que pudesse ajudar, mas o resto não foi sorte, foi amor. E o amor se não for alimentado, não cresce, não amadurece e vai embora, como acontece com milhões de casais.

Muitas pessoas acabam anulando a mulher que sou, em virtude da minha deficiência, como se a sorte fosse o fator que determina ele estar ao meu lado, como se um dia ele fosse acordar de um encanto e ver que “eu dou muito trabalho”. O que é uma besteira de marca maior, sendo que ele “me escolheu” sabendo que sou pessoa com deficiência, mesmo que antes do acidente não fosse cadeirante, nasci, cresci e tive que me adaptar ao longo da vida com a Atrofia Muscular Espinhal (AME 3) e ver meus movimentos musculares serem diminuídos e até perdidos pelo caminho.

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Todo relacionamento é baseado na troca. Quando alguém faz alguma coisa, de certa forma, mesmo que inconsciente, espera algo em troca. Agora, pense a magnitude do poder de uma mulher cadeirante que, mesmo precisando tanto de ajuda física, ainda oferece ao seu par a contrapartida que faz cada dia difícil valer a pena.

A cadeira de rodas não é um monstro de sete cabeças que engole o tesão, mina a empatia, zera a paciência ou destrói a confiança. A falta de caráter sim, o descaso, o desrespeito, e isso é válido para qualquer casal, independente da cor, orientação sexual ou condição física.

O segredo da felicidade (nesse caso, a dois) é respeito, amor, compaixão, uma vontade imensa de deixar a outra pessoa bem, cuidado, tesão, vontade de fazer coisas em conjunto, e poder dar e ter seu espaço individual (mesmo que acabe querendo compartilhar esse momento também). É, às vezes, ter que fazer coisas que não faria se não fosse pra ver a outra pessoa feliz, é fazer escolhas pensando nas consequências para ambos os lados, ter suas próprias brincadeiras, é riso frouxo, sexo bom, amizade sincera, companheirismo de alma. Uma cadeira de rodas, cegueira, surdez, muletas, próteses ou qualquer tipo de deficiência não tem o poder de limitar essas coisas.

Cadeirante ser casado com alguém legal não é sorte, sorte foi nós termos nos esbarrado nessa vida, o resto é o mérito de ambas as pessoas que fazem dar certo.

 

Cadeirante

 Amanda Lyra – Cantora, compositora, produtora e apresentadora, cadeirante e idealizadora do Projeto Solyra. Diretora e Editora chefe do Expresso Livre e Portal VRNews!

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