Autonomia do corpo com deficiência
Ilustração de @priii_barbosa
Publicidade

Um corpo com deficiência ser visto através de uma ótica de ineficiência é o pior dos enganos de uma sociedade que não entende este corpo e que não se interessa em estudá-lo ou acolhê-lo nas suas potencialidades.

A pesquisa cotidiana sobre o corpo deficiente através de uma medicina baseada no padrão que não compõe nem agrega este corpo diverso, passa pela clínica que não tem um estudo sobre corpos desviantes, principalmente feminin@s, feita através de termos de um linguajar profissional, destituído de qualquer teor que preze pelo cuidado psicológico com o paciente – no qual a condição permanente sugere um cuidado de viés diferenciado.

Todos estes termos revelam ao indivíduo com deficiência o principal modo de se cuidar, o ser empírico que tem atenção no caminho orgânico do próprio corpo, junto aos conhecimentos padrões médicos, mas margeado pelo autoconhecimento de ter que lidar com uma casa que só você conhece e consegue administrar. Um corpo que deve se reconhecer e demonstrar aos outros que a eficácia pode agir por mais de uma forma e que mesmo fora de norma se preserve funcional.

Um corpo em constante estudo por todas as pessoas que lidam com ele cotidianamente não permite ao seu indivíduo portador total individualidade. No tratamento médico: um corpo cheio de jargões e um tal de entra nessa máquina, faz esse exame, adapta isso aqui que não dá altura; No campo afetivo: faz assim que vai ser melhor, faz isso que eu sei que você consegue, toma um remédio que passa, pára de drama; No campo sexual: não dá para falar sobre isso em 4 frases.

Não dá para falar isso em 4 frases, pois todo fator social inviabiliza esse corpo para sua sexualidade, principalmente se for um corpo feminin@. Mesmo sendo um corpo em incessante exame, a sexualidade como um tabu não se examina, numa corporeidade tabu menos ainda. Por todos os processos exercidos sobre ele, sabemos muito sempre e continuamos a não saber nada sempre também. Tentamos entender e explicar a todos os momentos.Fazemos um caminho de autoconhecimento desligado da sexualidade, e não de uma forma sutil mas de uma maneira induzida e consciente. Chegamos ao ponto de entender todos os porquês de funcionamento individual do nosso corpo mas sem parâmetros de comparação não sabemos como explorar o componente sexual e às custas de muita maturidade e averiguações profundas e na maioria das vezes solitárias, percebemos nossa potência sexual.

Entendemos um sentido de autonomia completamente díspar de qualquer outra pessoa, sabendo quando devemos tanto dispor do extremo sexual ou precisar desligá-lo totalmente pela necessidade de um tratamento ou de um repouso ou mesmo de preservação. Devemos demonstrar que também temos libido e desconstruir as pessoas para que possam também lidar com ela, e todas as possibilidades incomuns de sexo e sexualidade, ainda explorar orientação sexual neste contexto e tudo mais.

Mas antes de tudo, fomos seres dessexualizados que precisaram criar autonomia para recriar um erotismo possível para nossos corpos.Destituir-se de padrões para um reconhecimento e uma nova inserção política e didática em sociedade. 

No meu caso o feminismo e o seu estudo foi um fator primordial para esta consciência corporal florescer e se embasar, principalmente pelo corpo feminin@ ser lugar subjulgado na sociedade, mesmo o padrão, e ainda assim é um caminho árduo ter que entender e passar por tudo isso para se incorporar e ter uma vida plena. E você, como vai apoiar a inserção dos corpos com deficiências e desviantes do seu cotidiano?

 

Ana Carolina Senos - Pessoa com deficiênciaAna Carolina Sênos é Mestranda em Direitos Humanos e Política Públicas pela UFRJ, Graduada em Artes Visuais pela UERJ, militante feminista, bissexual, não monogâmica e pessoa com deficiência que faz do cotidiano na escola pública que leciona artes um ato político diário

Publicidade

3 COMENTÁRIOS

  1. Texto incrível.
    Como sociedade, precisamos entender que corpos fora do padrão são mais comuns do que corpos dentro do padrão.
    Nossa sociedade é múltipla, e o “padrão imposto” é a exceção, e não o contrário.

    Parabéns pela autora incrível.

Deixe uma resposta